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Sir Gawain e o Cavaleiro Verde
Certo dia, um gigante verde, montado num grande cavalo verde, adentrou a sala de refeições do Rei Artur. “Desafio qualquer um aqui”, ele gritou, “a erguer este machado de guerra, que eu carrego comigo, e cortar a minha cabeça, e então, daqui a um ano, encontrar-se comigo na Capela Verde, quando então eu lhe cortarei a cabeça”.
O único cavaleiro, ali no momento, que teve coragem de aceitar o incongruente desafio foi Gawain. Ele levantou-se da mesa, o Cavaleiro Verde apeou do cavalo, entregou-lhe o machado, e estendeu o pescoço a Gawain, que de um só golpe lhe cortou a cabeça. O Cavaleiro Verde levantou-se, recolheu a cabeça, pegou o machado de volta, montou no cavalo e, ao partir, gritou para o espantado Gawain: “Eu o verei daqui a um ano”.
Naquele ano, todos foram gentis com Gawain. Cerca de duas semanas antes do prazo do encontro, ele se pôs a caminho, à procura da Capela Verde, para cumprir com a palavra dada ao gigante Cavaleiro Verde. Mais próximo da data, faltando ainda cerca de três dias, Gawain viu-se diante da cabana de um caçador, onde perguntou pelo caminho da Capela Verde. O caçador, um tipo agradável, cordial, veio encontra-lo na porta e disse: “Bem, a capela é logo aí adiante, umas centenas de jardas. Por que você não fica conosco os próximos três dias? Adoraríamos hospedá-lo. E quando chegar a hora, o seu amigo verde está logo aí, no caminho”.
Gawain concordou. E naquela noite o caçador lhe disse: “Bem, amanhã, logo cedo, eu sairei para caçar, mas voltarei à tardinha, quando então trocaremos nossas presas do dia. Eu lhe darei tudo o que conseguir na caçada e você me dará tudo o que tiver conseguido, durante o dia”. Eles riram e Gawain achou que era um bom acordo. E todos foram dormir.
Logo de manhã cedo o caçador parte, enquanto Gawain ainda está dormindo.Então entra a mulher do caçador, que era extraordinariamente bela, faz cócegas no queixo de Gawain, acorda-o, e, provocante, convida-o para uma manhã de amor. Bem, ele é um cavaleiro da corte do Rei Artur, e trair o seu anfitrião é a última coisa a que se rebaixaria, de modo que Gawain firmemente resiste. Ela, porém, é obstinada e insiste por algum tempo, até finalmente dizer: “Bem, então deixe-me dar-lhe apenas um beijo!”. Ela lhe dá então um sonoro beijo estalado. E isso é tudo.
À noitinha, o caçador chega com uma grande caçada, com todos os tipos de pequenos animais, atira-a no chão e Gawain lhe dá um beijo estalado. Eles riem e, aí também, isso foi tudo.
Na manhã seguinte, a mulher entra outra vez no quarto, mais provocante do que na véspera, e o resultado desse encontro é dois beijos. O caçador retorna, à noite, com o dobro dos animais que trouxera antes, recebe dois beijos e eles riem de novo.
Na terceira manhã, a mulher está deslumbrante, e Gawain, um jovem que está prestes a enfrentar a morte, faz tudo o que pode para não perder a cabeça, e a sua honra de cavaleiro, diante deste último presente da luxúria da vida. Desta vez, ele aceita três beijos. E depois de beija-lo, ela implora que ele aceite, como prova de amor, a sua liga. “Está encantada”, ela diz, “e o protegerá de qualquer perigo”. Então Gawain aceita a liga. Quando o caçador regressa, com uma única raposa estúpida e fedorenta, e a joga no chão, recebe em troca três beijos de Gawain – mas nenhuma liga.
Não podemos ver o que representam as provas a que é submetido este jovem cavaleiro, Gawain? São idênticas às duas primeiras do Buda. Uma é o desejo, a luxúria. A outra é o medo da morte. Gawain demonstrou coragem suficiente em manter sua fé, ao longo da aventura. Mas a liga foi uma tentação além da conta.
Assim, quando se aproxima da Capela Verde, Gawain ouve o Cavaleiro Verde afiando o grande machado, afiado, afiando, afiando. Gawain chega e o gigante apenas lhe diz: “Ponha o pescoço aí sobre esse tronco”. Gawain o faz e o Cavaleiro Verde ergue o machado, mas aí pára. “Não, estique-o um pouco mais”, ele diz. Gawain obedece de novo e o gigante ergue o machado. “Um pouco mais”, ele diz, outra vez. Gawain faz o melhor que pode e, então, o machado desce e provoca apenas um ligeiro arranhão no seu pescoço. Então o Cavaleiro Verde, que é de fato o próprio caçador, transfigurado, explica: “Isso é pela liga”.
Dizem que esta é a lenda da origem da Ordem dos Cavaleiros da Jarreteira.
Texto extraído integralmente do livro O Poder Do Mito, de Joseph Campbell e Bill Moyers.

Desenho feito pelo John Howe, ilustrador de várias edições de O Senhor dos Anéis. Abraço aos que comentam!!! I Love You All!!!
Escrito por RodrigoGrosskopf às 13h34
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